Bixo de Sete Cabeças

As práticas sociais contemporâneas, como o uso liberado, regulado ou proibido, de algumas substâncias psicoativas e suas implicações para o sujeito e para a sociedade são extremamente heterogêneas, assim como se esperam, heterogêneas sejam as abordagens que demandam.

Nesse sentido, é importante a discussão do Crack no RS, mas de forma mais contextualizada, partindo das múltiplas denúncias de quem trabalha com população de rua há mais de uma década - quando a ênfase ainda era o Loló - e chegando ao momento atual, em que a 'pedra' atinge também significativa parcela de pessoas de classe média e alta. Em maio último, a Associação do Ministério Público do RS, começou o trabalho de denúncia mais enfático do Crack. Campanha com enfoque - inclusive de marketing - diferenciado do da RBS, que, após isso, vem popularizando e 'aterrorizando' com o tema. A primeira propôs - e tem mantido - o lema: 'Ignorar é seu vício?', enquanto a segunda propõe 'Nem pensar!'. Ambas intervenções, contudo, vem tendo atuação em parceria, difundindo em todos os lugares que o vício se pega na primeira experimentação e que não há recuperação ou que essa, quando possível, é duvidosa, demorada e cara.

Na esteira menos óbvia de toda a discussão, em meio a uma conjuntura de retrocesso na implantação da reforma psiquiátrica, o que se apresenta é uma tentativa de retorno a centralidade da psiquiatria como detentora do saber sobre as produções psíquicas, numa perspectiva da neurociência, descontextualizando a questão enquanto produção social, ou seja, produção coletiva agenciada por muitos atores. O Crack anda na direção deste movimento, portanto, querem se justificar intervenções químicas e internações psiquiátricas como soluções únicas.

É um momento, portanto, tenso. Um período onde muitas conquistas refletidas socialmente por muita gente, que se ocupa do tema, são facilmente vencidas por 'espetacularismos' de toda ordem. O apelo ao imediato, da negação de direitos e da internação, ao medo que se instala dentro das famílias ('porque é ali que o inimigo está, não na esquina, mas no primo, no tio. Dentro de sua casa', como têm reiterado palestrantes em escolas e comunidades) criando um clima de guerra, onde quem tem outras palavras a respeito ,pouco espaço tem, 'porque isso tudo é muito bonito no papel, mas a realidade é bem diferente'.

Nesse contexto, parece não haver maior inimigo do que a intolerância (prática tão nefasta quanto a omissão). Até porque, psiquiatras, psicólogos, outros profissionais de saúde, sociólogos, antropólogos e tantas outras áreas do conhecimento, assim como usuários, ex-usuários, familiares - todos - têm muito a contribuir em termos de intervenção.
Além disso, parece que buscar 'a verdade', criando 'bichos de sete cabeças', monstros, bandidos e 'um só mocinho' (o saber psiquiátrico), mais do que infantil pode ser um discurso útil para manter certos locais de cuidados que não mais deveriam existir, porque há muito se sabe que não realizam a função que alardeiam, mas outra, avessa ao cuidado. Isso, fora o fato de estarmos tratando de apenas um tipo de droga e pensando apenas no nível do indivíduo, desprezando que tal prática é uma construção social, que atende a muitos interesses, assim como outras práticas semelhantes, como o uso abusivo de álcool, que também 'corrói famílias', mas ajuda a alimentar indústrias e a ser uma importante fonte de recursos para todas as mídias.

Quando se criam estereótipos tipo 'exército de zumbis' (adjetivo usado em relação aos usuários de Crack) que abordagens podem nos vir à mente ? O que se faz com zumbis em filmes? Se não isso, por que não apenas encarcerá-los ? Afinal, se têm recuperação duvidosa e certamente demorada, porque manter no convívio social.


José Carlos Sturza de Moraes
Cientista Social e Professor

 

Logosofia 80 anos no mundo

Com o advento dos computadores e da Internet podemos conversar com seres de qualquer parte do globo, podemos até mesmo fazer compras sem sair de casa. No entanto, apesar de todas estas conquistas e conforto, algumas interrogantes permanecem no íntimo de cada um de nós: Quem sou eu? Qual é o objetivo da vida? Quem é Deus? E muitas outras. Assim, percebemos que nos falta algo; mas, este algo não pode ser de natureza material, pois, nesta área já possuímos tudo. Então, diante da impossibilidade de responder a estas questões, perambulamos pela vida, procurando aqui e ali, sem nunca encontrarmos respostas para os nossos anseios; assim, deparamo-nos com uma grande angústia e inquietação tornando nossa vida vazia e sem objetivo.
A Logosofia, ciência criada, em 11 de agosto de 1930, em Córdoba, Argentina, e que tem como autor, González Pecotche - Raumsol, apresenta aos homens uma nova forma de sentir e conceber a vida, auxiliando a cada um, através de seus ensinamentos de ordem transcendente, a descobrir, dentro de si, as respostas para tais interrogantes, através do conhecimento de si mesmo, que se efetiva mediante um processo de evolução consciente, no qual o homem é seu próprio redentor, tomando em suas mãos as rédeas de sua vida, assim, forjando seu próprio destino.
Desta forma, o homem compreende que vivia em um processo de evolução inconsciente, alheio a tudo o que ocorria em seu interno e fora dele, ou seja, ausente de sua própria vida. Portanto, ao ir realizando o processo de evolução consciente, renasce para uma nova realidade que antes lhe era desconhecida; pois, ao despertar a sua consciência, desperta, também, sua inteligência e sensibilidade, descortinando para ele uma imensa gama de possibilidades, que antes ignorava, e irá resgatando a fé e confiança em si à medida em que conhece a si mesmo e os enigmas de sua própria criação.

Pedro César Nunes da Silva
Docente de Logosofia



O plano subversivo

O crescimento industrial tardio ocorrido em nossa pátria, aliado ao modelo de desenvolvimento adotado, com elevado índice de exclusão social, resultou no crescimento desordenado de nossos grandes centros urbanos, acarretando inúmeros problemas decorrentes da falta de infraestrutura e da ausência de planejamento.

Com o fluxo migratório interno rumo aos grandes centros, constituíram-se inúmeros assentamentos urbanos informais, extremamente carentes de infraestrura e serviços públicos. As populações despreparadas para a inserção no mercado formal dedicam-se a atividades autônomas de prestação de serviços ou de produção e comércio informal.
Via de regra, a forma de ocupação do território é permeada pela segregação espacial da cidade, ou seja, os melhores sítios são ocupados pelas classes mais altas, sobrando aos pobres e excluídos as áreas distantes, desprovidas de estrutura urbana, muitas vezes em áreas ambientalmente vulneráveis, como beiras de arroios e encostas de morros.
Esta lógica de cidade encaminhou a constituição de focos de produção e distribuição de drogas, disputas por território e muita violência urbana.

Porto Alegre não é muito diferente e, a grosso modo, segue o mesmo paradigma, excetuando-se um breve período da história em que o município buscou incluir espaços destinados à moradia de população de baixa renda em bairros estruturados.
Pensando nestes problemas estruturais foi concebido o Estatuto da Cidade, Lei Federal 10.257, que busca acabar com a segregação espacial da cidade, coloca os empreendimentos excepcionais à serviço da sustentabilidade social e ambiental e atribui ao cidadão a condição de mediador no debate sobre o planejamento urbano.
Na revisão do Plano Diretor de Porto Alegre ocorrida em 2009, no entanto, todos estes princípios definidos pelo Estatuto da Cidade foram subvertidos.

No processo legislativo foram aprovados os fabulosos Projetos Especiais, que criam a possibilidade de empreendimentos pontuais capazes de desconstituírem a ordem urbanística pré-estabelecida. Com este enquadramento adquiriu a permissão para construção de alturas e volumetrias proibidas pela lei, usos indevidos e um sem número de riscos e prejuízos ao meio ambiente. A metodologia adotada para a produção destes empreendimentos, por sua vez, tem se demonstrado um forte instrumento de expulsão da população de baixa renda existente em suas cercanias.

As Audiências Públicas, instituídas para que a cidadania pudesse exercer a mediação no debate da concepção das construções de impacto urbano, são uma piada. Invariavelmente, o povo fala contra, por intermédio das suas Entidades representativas, os empreendedores fazem a defesa de seus projetos e o Poder Público, em nome do "desenvolvimento", faz ouvidos de mercador ao povo e aprova os projetos dos empresários.

Com esta prática são aprovados os projetos de desenvolvimento urbano como: o espigão da Lima e Silva, ao lado dos casarios com valor histórico; o arco futurista, encobrindo o Mercado Público; o Pontal do Estaleiro, rejeitado no voto pelo povo com 80% de votos contrários; Gigante para sempre e Arena do Grêmio e, por aí na certa iriam as terras da FASE no Morro Santa Tereza, se a Assembleia Legislativa e o Povo Organizado não resistissem.

É uma lástima, mas em nossa cidade o interesse do poder econômico subverte a ordem que foi instituída para garantir o crescimento das cidades com sustentabilidade social e ambiental.

Paulo Guarnieri
Presidente da Associação
de Moradores do Centro

 

 


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