Escola Porto Alegre, 15 anos de acolhimento, socialização
e construção de conhecimentos

O dia 30 de agosto marca os 15 anos da inauguração do prédio da Escola Porto Alegre, em 1995. No entanto, a dedicada equipe da escola já havia começado os trabalhos de mapeamento, observação, abordagem e entrevistas com os futuros alunos (crianças em situação de rua, no Centro), além de aulas abertas nas ruas e praças. E, também grupos de estudos sobre "educação social" quase dois anos antes.

Ao longo desses quase 17 anos a EPA passou por várias mudanças e se adequou às transformações da realidade social. Hoje a escola funciona como EJA (Educação de Jovens e Adultos), atendendo principalmente jovens, alguns continuam na rua ou estão abrigados, ou mesmo dentro da comunidade próxima, como na vila Chocolatão e também jovens de vários bairros da cidade, mas em situação de vulnerabilidade social.

A Coordenadora Pedagógica da escola Mírian Lemos, que também foi a primeira diretora da EPA, explica o porquê da mudança. De acordo com ela, em 93, a demanda no Centro era maior para o atendimento de crianças e adolescentes em situação de rua, pois não havia uma rede formada para o atendimento dos mesmos. Hoje, existem vários serviços de atendimento que compõe a rede Inter-Rua, que fazem esta abordagem, e encaminha as crianças de volta para casa; ou, em casos de violência, para abrigos (sem que estas permaneçam no Centro).

No entanto, a escola que fazia um trabalho diferente das demais, atendendo a crianças de rua, não se transformou em apenas mais um EJA. A EPA possui três pilares que se complementam e a diferenciam das escolas "normais".

Ao invés de SOE (Serviço de Orientação ao Estudante), a escola possui o SAIA (Serviço de Acolhimento Integração e Acompanhamento), "que vê o todo do sujeito", como afirma a Diretora da Escola Márcia Gil, enquanto mostra a pasta de um dos alunos com documentos, prontuários médicos e até fotos pessoais. Ela explica que como muitos não têm casa, as coisas mais queridas e importantes ficam ali guardadas. "É um registro da vida, como foi se construindo nesses 15 anos de acolhimento", afirma. Já o professor Carlos Bertolazzi explica que o acompanhamento cidadão é uma forma de garantir o direito ao ensino fundamental, pois os alunos têm uma série de problemas que os afastam da sala de aula, e ajudá-los a solucionar essas questões é garantir a permanência na escola.

A Coordenadora Pedagógica exemplifica o trabalho diferenciado: encaminhamento para acolhimento, programas de saúde e judiciário, ou de volta para a própria família ou comunidade, ou ainda para um trabalho regular, dependendo do caso. Um dos tantos exemplos é Marco Aurélio, de 22 anos, que estuda na T2 (séries iniciais), e trabalha à tarde em uma loja de calçados. Hoje ele mora no abrigo municipal chamado Acolhimento Noturno Ele conta: "antes eu não sabia ler nem escrever e vivia na rua."

Mais um diferencial da EPA é o Núcleo do Trabalho Educativo, que a partir do levantamento da história de vida dos estudantes e de suas habilidades e interesses, construiu áreas de atuação que se complementam, são elas: papel artesanal, jardinagem, cerâmica e informática. O NTE visa ajudar os alunos a se organizarem para o trabalho em questões como rotina , horário e também financeiramente, além de gerar renda. Muitos alunos já estão com carteira assinada, afirmam Bertolazzie e a Diretora.

O outro diferencial da escola é a ressignificação do espaço interno e externo destes jovens, através de uma proposta de emancipação pessoal e social, projetos de integração e qualificação, por meio de oficinas.

Entre os projetos da EPA está "O ontem na atualidade - atuando pela democracia", programa financiado em parte pela Comunidade Européia, que envolve quatro países (Alemanha, Espanha, Argentina e Brasil) e tiveram experiências totalitárias recentemente. O projeto que conta com oficinas de teatro, música e vídeo, visa, através da pesquisa e da reflexão em torno do assunto, despertar o engajamento político/comunitário destes jovens, que agora serão multiplicadores das aprendizagens feitas. Eles participaram de um intercâmbio, em Granada, para compartilhar experiências dos envolvidos nos quatro países.

O aluno Juliano Aguiar, de 17 anos, da T5 (séries finais), foi um três que participou do projeto e viajou para a Espanha. Ele afirma que gostou das oficinas e de estudar a história do país, além de que antes não se interessava por política e descobriu que é importante para viver bem. Juliano conta que entrevistou pessoas que foram perseguidas pela ditadura "foi emocionante ouvir as histórias", afirma. Juliano também mora no Acolhimento Noturno e faz oficinas no Lar Dom Bosco. E conta ainda que antes da estudar na EPA, não se expressava direito. Hoje "sei me expressar melhor", afirma.

Outro projeto interessante é o "Fazendo cerâmica como os nossos avós", que resgata a cerâmica como mais uma opção de sustentabilidade para os índios caingangues.

Este projeto com proposta multidisciplinar acontece na EPA. em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Segurança Pública, com acompanhamento de um antropólogo. “Há oficinas abertas à comunidade para estimular a convivência dos alunos com outra população e sair um pouco do gueto; quebrar o estigma tanto de um lado, quanto do outro", explica Miriam. A cerâmica caingangue é vendida no Brique da Redenção.

Ainda com geração de renda para os jovens, a escola tem oficina de papel reciclado e cartonagem e seus alunos já produziram pastas para o Fórum Social Mundial e para as Conferências Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente, como conta o aluno Glauber Fernando, de 21 anos, da T4 (séries finais), que tirou a carteira de artesão e ajuda a monitorar a oficina de papel artesanal.
Parabéns à EPA, aos professores, aos alunos e todos àqueles que acreditaram na construção de uma escola de cidadania.

"Para quem vivia nas ruas e, sem lugar, sem pertencimento, significa apropriar-se da cidade - Porto Alegre - através da escola." Miriam Lemos, explicando o carinho especial pela foto da audiência com o então vice-prefeito Raul Pont e com os secretários para solicitar o nome Escola Porto Alegre.





 


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