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As verdadeiras funções
do vereador
Paulo Moura
professor universitário
Nos
últimos meses tive a oportunidade de viajar por vários
municípios do interior do Rio Grande do Sul e, com raras
exceções, na maioria deles tive a impressão
de que não está acontecendo uma eleição.
Conversando com agentes políticos ouvi o mesmo relato sobre
outros municípios do Estado. Não sei se o mesmo
está ocorrendo no resto do país, mas tenho a impressão
que sim.
Inquirindo políticos sobre as razões para isso,
ouvi que as restrições à liberdade de imprensa
e a lei que impõe limites à propaganda eleitoral
teriam assassinado o debate político e, com isso, afastado
o eleitor do envolvimento com as campanhas eleitorais. Talvez,
em parte, isso ajude a explicar o que se passa. No entanto, já
se passaram mais de trinta dias desde que começou o horário
eleitoral gratuito na mídia e o eleitorado continua frio;
distante da eleição.
Acompanho pesquisas eleitorais há anos. Falo de pesquisas
feitas para entidades empresariais ou para partidos, e que não
são publicadas. Nesse tipo de pesquisa, dentre outras coisas,
avalia-se a audiência da propaganda política na mídia
e a retenção das mensagens na mente do eleitor.
Os índices de audiência, no passado, costumavam ser
de 60% da audiência do horário equivalente em período
não-eleitoral, no início e no fim das campanhas,
e de cerca de 40% no meio da campanha. A curiosidade inicial e
a necessidade de escolher um candidato num contexto de obrigatoriedade
do voto, explicavam a audiência maior no início e
no fim da eleição.
De uns anos para cá a legislação autorizou
os spots de propaganda política no meio da programação
normal, e não mais apenas no horário vespertino
e noturno. Desse tipo de propaganda política, ninguém
que ouça rádio e veja TV aberta escapa. Mesmo assim,
em pesquisas às quais tive acesso, o número de pessoas
que revela contato mais intenso com a disputa eleitoral em curso
na mídia há mais de 30 dias, está muito abaixo
dos pleitos de anos anteriores.
É difícil fazer uma avaliação mais
precisa para as razões desse tipo de comportamento do eleitorado
sem ter pesquisas qualitativas em profundidade que permitam aferir
o que se passa na mente do eleitor. No entanto, é razoável
supor que dois fatores possam explicar essa distância do
povo em relação à política. Por um
lado, a bonança na economia. Com dinheiro no bolso, o povo
vai reclamar do que? Por outro lado, talvez o fator maior a explicar
o distanciamento do povo da política esteja na corrupção
do PT. Concordando ou não com a ideologia petista, o fato
é que o petismo (retórico) aparentava ser a reserva
moral da nação; a esperança de que um dia
a política poderia ser feita de outra forma; de que o país
poderia ser diferente. Flagrado em franca contradição
com o discurso de antanho, o PT acabou com a ilusão e a
ingenuidade de todos os que acreditavam no que os petistas pregavam
sobre a moralidade política. Num primeiro momento a descoberta
gerou um misto de decepção com indignação
nos eleitores do PT de outrora. O desencanto da classe média
dos grandes centros urbanos ficou evidente nas urnas de 2004 e
do plebiscito das armas em 2005. Contabilizada a irreversibilidade
do prejuízo, o PT executou, com sucesso, uma esperta manobra
de marketing. De partido que acusava todos os seus adversários
de imorais e desonestos, passou a dizer que “a política
é assim mesmo” e que “todos fazem” o
que PT foi flagrado fazendo. Deu certo. Primeiro os próprios
políticos se perdoaram no Congresso; em seguida o povo
os perdoou nas urnas.
Lula e uma parcela expressiva dos mensaleiros e sanguessugas se
reelegeram. Os frutos da ortodoxia econômica de 2005 estão
sendo colhidos agora. Aos poucos os escândalos do passado
foram se perdendo na memória popular e encolhendo nas páginas
dos jornais. A corrupção foi banalizada. Manchetes
sobre ilicitudes no trato da coisa pública tornaram-se
tão freqüentes que sequer escandalizam mais. E o povo
se comporta como certos pais de filhos drogados que preferem fingir
que não sabem e não vêem o que está
na cara.
Como a economia vai bem, as pessoas preferem fingir que não
vêem. Conformaram-se. Entre impotentes e coniventes, decidiram
conviver com a bandalheira generalizada que tomou conta dos poderes
constituídos da nação.
Conformado, o povo perdeu a capacidade de se indignar. Essa, talvez
seja a principal causa da desmobilização da população
em relação à eleição em curso.
Mas, essa gente toda, que parece parada e distante, dia 5 de outubro,
vai votar. E a conversão repentina às urnas desse
povo que olha o pleito de longe, pode causar surpresas que as
pesquisas talvez não estejam registrando. Os institutos
não fazem as perguntas que seriam necessárias para
entender-se o que se passa na mente dos brasileiros.
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