Porto Alegre e a Revolução Farroupilha

Tenho pesquisado mais sobre a vida republicana do Rio Grande do Sul, a Revolução Federalista, a Velha República e, depois, a história urbana de Porto Alegre. Entretanto, minha atenção foi despertada para um capítulo pouco estudado da Revolução Farroupilha, que foi o sítio ao qual a cidade de Porto Alegre foi submetida durante quatro anos. Rigorosamente, foram três sítios com duas interrupções, mas que tiveram marcante influência na vida da cidade, cujo desenvolvimento foi paralisado de 1836 até 1840. É um capítulo pouco estudado.

E por quê? Especialmente porque tivemos, na história da Revolução Farroupilha, uma história de glorificação dos farrapos. É curioso, mas essa parte da historiografia gaúcha é marcada pelo mito, pelo imaginário, pelo interesse político. Cabe aqui fazer uma análise dos motivos.

Fim da Revolução Farroupilha. Em 1845, fez-se a paz. Foi muito hábil a pacificação realizada por Caxias, de extrema eficácia, porque, em seguida, as fileiras se misturaram. Farrapos que tinham sido até ministros da República Rio-grandense passaram para o partido dos conservadores, e velhos legalistas com tradição, como o Conde de Porto Alegre, foram integrados depois ao partido dos liberais. O Partido Liberal teve como chefe de uma de suas facções no Rio Grande do Sul o Conde de Porto Alegre e, de outra, o General Osório. Ambos lutaram na Revolução Farroupilha ao lado dos imperiais.

Salvo os generais, Caxias manteve todos os oficiais do exército da República Rio-grandense em seus postos, pagaram-se as dívidas contraídas por ela e, de um modo geral, os atos praticados pela República foram respeitados. Quem estudar a história da Assembleia Legislativa Provincial verá que se fez silêncio depois da pacificação em 1845, ninguém mais falou da Revolução Farroupilha, e isso durante 30 anos, de 1845 até 1875, aproximadamente. A Revolução Farroupilha foi um capítulo arquivado.

Quem foi o autor do primeiro livro que surgiu? Tristão de Alencar Araripe, um legalista. A obra era “A guerra civil do Rio Grande do Sul”, o autor era um cearense, funcionário do Governo, que veio ao Rio Grande do Sul e o conheceu como presidente da província. Havia uma espécie de contrição pela longa e desastrosa guerra civil.

Foram os jovens estudantes da faculdade de Direito de São Paulo, Julio de Castilhos, Alcides Lima, Assis Brasil e outros que começaram a manifestar interesse pela história da República Rio-grandense e pela história farroupilha. Há uma carta muito interessante, que está no arquivo do Instituto Histórico, dirigida pelo então estudante Julio de Castilhos, ainda em São Paulo, para Apolinário Porto Alegre, pedindo a ele que estudasse e divulgasse a história da Revolução Farroupilha. Lá, eles fundaram o Clube 20 de setembro, com esse interesse específico. Em 1880, quando é publicado um livro de Assis Brasil sobre a história da República Rio-grandense, começa a nascer o interesse político por sua história. Mas não era um interesse científico, com a devida preocupação de objetividade que deve ser o aspecto dominante da historiografia.

O estudo sobre a Revolução Farroupilha nasceu em função da propaganda republicana e da fundação do Partido Republicano. Quando vitoriosa a República, o hino, a bandeira e as armas da República Rio-grandense passaram a ser oficiais. Então, o Rio Grande do Sul incorporou oficialmente o patrocínio da história da República Rio-grandense, um caso raro. A outra exceção, creio, foi Pernambuco, que tem como bandeira a da Confederação do Equador. Mas, de todos os pensamentos federalistas que surgiram durante a Regência apenas o do Rio Grande do Sul se consolidou no imaginário regional e se oficializou, por assim dizer.

Surgiu, então, uma história oficial de culto aos farrapos, mas ignorando o lado dos adversários, que não foi inexpressivo. Porto Alegre, Rio Grande, Pelotas e São José do Norte mantiveram-se fiéis à integridade do Império, e não acompanharam e secundaram os líderes da Revolução Farroupilha. O fato se explica porque todo o comércio do Rio Grande do Sul se dirigia ao Brasil, e não podia perder o mercado brasileiro sob o ponto de vista econômico. Em conseqüência, a fundação da República Rio-grandense é um paradoxo, já que não tinha fundamento nem objetividade econômica.

Isso traduz toda essa digressão e responde à pergunta de porque o sítio de Porto Alegre é um assunto arquivado em nossa historiografia. Além disso, temos aqui o estranho caso de cultuar como heróis justamente aqueles que atacaram a cidade com violência. O general Neto, que assestou seus canhões sobre ela e a bombardeou repetidamente durante vários meses, hoje é nome de rua em Porto Alegre. O general Bento Gonçalves, que também bombardeou a cidade e tentou atacá-la várias vezes, também é nome de rua.

Já Francisco Pedro de Abreu, o Barão do Jacuí, que muitas vezes salvou Porto Alegre da fome, trazendo gado para abastecer a cidade quando estava sitiada, não tem seu nome em uma rua sequer dentro de Porto Alegre. Francisco Pedro de Abreu foi exemplo de um dos maiores combatentes de toda a guerra civil, de grande habilidade tática e especialista em surpresas.

Derrotou, individualmente, todos os comandantes rebeldes com suas incursões, e terminou sepultando a Revolução Farroupilha no combate de Porongos. Da mesma forma, o major Jorge Mazarredo, comandante do 8º Batalhão de Caçadores, que morreu em combate na Várzea (hoje Parque Farroupilha), mostrou valentia e muito brio. Ambos não receberam qualquer homenagem da cidade. Por sua vez, o coronel-brigadeiro Francisco Xavier da Cunha, que comandou a cidade durante longo tempo, e depois morreu no Passo de Santa Vitória, na divisa com Santa Catarina, nunca foi lembrado na capital. Tive o cuidado de olhar todo o elenco das ruas de Porto Alegre para ver se aparecia alguma menção aos comandantes legalistas. Apenas o Conde de Porto Alegre, que depois foi chefe político, líder do Partido Liberal, é tratado diferentemente, e isso explica a homenagem que lhe foi feita. Foi a primeira pessoa que recebeu uma estátua em praça pública em Porto Alegre.

Os fatos mostram quanto a nossa historiografia é distorcida. Ela é decididamente inclinada a enfeitar a memória dos farroupilhas e denegrir a memória dos legalistas.


Sérgio da Costa Franco

historiador



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