| A Capital do Fórum Social Mundial é cosmopolita
Conhecida por ser agregadora de diversas tribos,
Porto Alegre se consolida no Fórum como a Capital da diversidade.
26 de Janeiro de 2010. Eram quase 16 horas quando cinco gurias paranaenses, saindo de um debate sobre Sustentabilidade Ambiental na Usina do Gasômetro, um pouco perdidas, perguntaram aos repórteres do Jornal do Centro em que estação do Trensurb poderiam descer para ver o discurso do presidente Lula. Ao som de um francês que tocava realejo, rimos. E argumentamos: o caminho é a Zona Sul, podemos ir a pé. Naquele momento, o calor era imenso. Assim sendo, decidimos pegar um ônibus, a linha 188 - Assunção. Uns dos primeiros a entrar, resolvemos ficar de pé: queríamos ver rostos, analisar quem estava indo para o Gigantinho. Também estávamos encantados com o Fórum. O quanto ele tinha sido desprezado, desdenhado e o quanto ele estava provando que sim, além de ser um grande debate político, é um grande fomentador do turismo. Estávamos surpresos porque, querendo ou não, acabamos influenciados pela imprensa, achávamos que o Fórum não traria muita gente de fora. Ledo engano. Estavam no ônibus hispânicos, um belga, brasileiros do norte, do nordeste, do centro-oeste, do sudeste, daqui do sul. Para embarcar toda essa gente, uns cinco minutos. Mas quem se importava? Aquele povo, tão diferente e tão igual ao mesmo tempo, conversava, fazia novos amigos. A discussão mais acalorada foi puxada por nós. Lembramos que entre 1959 e 1963, Leonel de Moura Brizola, enquanto governador, construiu quase 6 mil escolas durante seu governo. E que hoje temos escolas fechando, crianças estudando em containeres de lata...
Chegando ao Beira-Rio, fila. Muita fila. O motivo era o rigoroso controle de segurança do Presidente da República. Nosso fotógrafo, inclusive, teve que deixar um garfo que tinha na mochila, que usava para comer durante sua estadia no Acampamento Intercontinental da Juventude. Outros tiveram que deixar o chimarrão.
Eram, ao menos no meu relógio, 18 horas e 12 minutos quando adentramos o Gigantinho. O ginásio ainda estava vazio. Achamos estranho, o evento estava programado para as 18 e 30... As sindicais ostentavam suas grandes bandeiras. A União da Juventude Socialista, sentada à frente do palanque, entoava cânticos saudando o presidente como guerreiro do povo brasileiro. Em uma faixa pendurada no alto, atrás do palanque, a UNE voltava a repetir sua atual bandeira: 50% do Pré-Sal para a educação.
O tempo passava e nada de movimentação oficial. Depois de duas horas esperando, regadas a muito café caro e alguns salgados, avistamos, do último andar das escadarias do ginásio, através da janela, a comitiva presidencial chegando. Alívio: a hora tão esperada ia chegar. Mais uns 30 minutos de "camarim" e lá estava ele, já com ginásio lotado, subindo no palanque, para delírio daquele povo, que via em Lula mais que esperança, certeza de que suas vidas tinham mudado. Ao meu lado, um homem de aparentemente 30 anos, de Sorocaba, São Paulo, aplaudia emocionado: -Graças a ele eu estou na universidade - dizia com os olhos marejados. Naquele momento, mais que em dados frios, estatísticas ou algo exato, pude sentir, como humano: Luis Inácio Lula da Silva foi um grande presidente.
Certos setores da esquerda, como o PSTU e o MST, resolveram boicotar a festa do presidente, indignados com a mudança de discurso entre 2003, quando Lula foi eleito e chamara o governo Collor de "roubalheira" e avaliara que faria "o governo mais honesto da história deste país".
Mais inclinado ao centro, o presidente avaliou seu governo. Emocionou-nos, e se emocionou, ao dizer que chegaria em Davos e diria que um torneiro mecânico e de baixa escolaridade foi o presidente que mais construiu escolas técnicas e universidades. Não fez críticas ao capitalismo, mas fez críticas à teoria do Estado mínimo. Ao final, já cansado e apresentando sinais da doença que viria a lhe acometer durante essa semana, inclusive retirando-o do Fórum Econômico de Davos, salientou: Porto Alegre é a cara do Fórum Social Mundial. -Sinceramente, foi uma lástima saber que o Fórum Social Mundial tinha saído de Porto Alegre (referindo-se ao ano de 2005). E assim despediu-se o presidente, muito ovacionado.
Na saída do Gigantinho, mais mistura, mais gente de todos os cantos do mundo, cada um indo para um lado. A reportagem do Jornal do Centro ainda correu para Canoas, onde ainda iria apreciar os shows de Nação Zumbi e os lendários Mutantes.
Hoje, vai indo embora o Fórum, vai ficando a certeza: esse evento transforma Porto Alegre, dá cor, vida à cidade. E nos torna ainda mais, de fato, cosmopolita.
|