No último dia 11 a Associação do Centro Histórico reuniu-se com representantes da FASC. Na oportunidade, houve um relato sobre o funcionamento da Fundação, assim como a forma com que é conduzida a política da assistência social na região Central da cidade, em particular no Centro Histórico. Foram enfatizados vários pontos, como a amplitude do trabalho, do qual a atenção a moradores de rua é apenas uma parte, o censo da população de rua e o plano de trabalho.
A Associação apresentou um conjunto de observações e propostas acumuladas ao longo do tempo em discussões relativas ao tema. Considera-se que o objetivo estratégico da política de Assistência deve ser a integração social plena dos moradores de rua, única forma capaz de resolver definitivamente este grave problema. O mais importante na abordagem do tema é o conhecimento profundo da situação. É necessária a execução de um cadastro qualitativo da população de rua, capaz de apontar as razões que levaram cada um a esta condição. Muitas podem ser as razões: desemprego, déficit habitacional, migração mal sucedida, relações familiares, distúrbios emocionais ou psíquicos, consumo de álcool ou drogas, dificuldades na reinserção social como no caso de ex-apenados, etc. Tal ação é fundamental não só para delinear o conjunto de estratégias de abordagem, como também, para “separar o joio do trigo”, uma vez que muitos oportunistas juntam-se à população de rua para usufruir benefícios e doações. Realizando um diagnóstico preciso baseado num cadastro eficaz, tornar-se-á fácil definir as ações necessárias para o enfrentamento desta complexa situação.
De qualquer forma, a ação deverá ser multifinalitária e integrada. Sob a coordenação do órgão público responsável pela Assistência Social, deve funcionar toda uma rede de órgãos públicos, capaz de encaminhar a gama de ações, que se inter-relacionam, e devem ser conduzidas conjuntamente e de forma articulada, visando atender a demanda apontada pelo cadastro. Soma-se a isto uma extensa rede de iniciativa privada, cristalizada em ONG’s e Grupos de Caridade, que podem oferecer ações de apoio e estruturas complementares.
O tratamento do problema não pode permanecer como está, de forma anárquica, com distribuição de alimentos por instituições desarticuladas entre si e com o estado, fixando núcleos de moradores de rua. A alimentação pode ser a porta de entrada de uma política de novo tipo. Não há dignidade no santificado ato da alimentação, quando realizado no chão, em praças ou em baixo de viadutos... Uma pessoa que por alguma razão se submete à condição vexatória de alimentar-se na rua, sem higiene e conforto, à vista dos transeuntes, não pode encontrar nesta condição estímulo para ir além disto.
É imperioso que o Poder Público institua espaços abrigados, com estrutura para a alimentação e higiene, articulando a ação voluntária de caridade e atendendo o cadastro qualitativo sugerido no início. Sentar-se à mesa, comendo com pratos e talheres, com as mãos limpas, certamente trará a estas pessoas um estímulo para ir além.
Existe no Centro Histórico um grande número de prédios não utilizados servindo apenas para proliferação de vetores e risco à vizinhança, que poderiam ser utilizados pelo Poder Público, visando à execução das ações sugeridas. Este é o sonho; a parte mais importante, aquela que tem a capacidade de colocar-nos em movimento visando a conquista de objetivos. O conhecimento do problema esta sendo buscado através do censo, que já está sendo encaminhado pela FASC. Resta compor uma estrutura à altura da exigência, posto que a atual conformação parece-nos muito aquém do necessário. A disposição e o engajamento que os profissionais da área demonstram ter, não supre a precariedade da estrutura e a exiguidade de recursos financeiros e humanos existentes para tratar o problema. Como diz Izabel Czyz, organista da Catedral, “Se quisermos acabar com o problema dos moradores de rua, devemos todos nos engajar fortemente na reinserção social e econômica destas pessoas”. Fora desta perspectiva, qualquer ação é paliativa.

 

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