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Uma outra
comunicação é possível
Camila Tomazzoni Marcarini
Diretora de Comunicação da UNE,
União Nacional de Estudantes
Atualmente
os movimentos sociais são cada vez mais chamados a mobilização.
Vivemos em dias que direitos humanos retrocedem a olhos vistos
e que caminhamos para um grande abismo entre o que vemos e o que
fazemos diante da realidade. A alienação e o consumo
andam juntos, apoiados pelos monopólios da comunicação
e informação que servem à interesses de grandes
grupos empresariais. Nosso modelo atual de comunicação
social exige mudanças significativas nas políticas
governamentais para o setor, bem como a criação
de mecanismos de controle público dos veículos de
comunicação. Além disso, temos que acabar
com a renovação automática de concessões,
sem critérios, avaliação e transparência.
Atualmente, a mesma empresa de comunicação dona
de jornal, também é dona de TV, rádio, provedores
de internet, livros, etc. Essa concentração acaba
facilitando também a criação e consolidação
dos monopólios, que acabam comprando jornais menores, causando
a perda cada vez maior de referências locais de comunicação.
Na história do Brasil os veículos de comunicação
não tiveram apenas intervenção cultural,
entretenimento e lazer, mas também política. Muitas
concessões foram oferecidas nos tempos da ditadura militar.
Existia uma grande esperança que com a eleição
de Lula houvesse a superação do atual sistema e
a construção de um mundo justo e fraterno, que não
mercantilize toda a produção cultural e de entretenimento.
A presença de Hélio Costa no Ministério da
Comunicação representa um atraso na democratização
da comunicação. Vimos nos últimos tempos
a manutenção das políticas de concessão,
o aumento da repressão às rádios comunitárias,
a falta de regulamento dos meios privados. Por outro lado, acompanhamos
novidades como a criação do Fórum das TVs
Públicas pelo ministério da Cultura e Radiobrás,
a criação da TV Brasil e recentemente os sinais
da TV digital. É diante dessa contradição
que temos que atuar. No último dia 02 de dezembro acompanhamos
um pronunciamento de Lula em cadeia nacional anunciando a primeira
transmissão da TV digital. Essa data representa uma mudança
comparável com a transmissão a cores há 35
anos. Mas qual o impacto que a TV Digital terá no Brasil?
Por enquanto muito pouco para os milhões de brasileiros.
A entrada do sinal digital será gradual. Só em 2013
todos os municípios receberão o sinal e os conversores
ainda custam de R$ 450,00 a R$ 1.000,00. Entretanto por trás
da festa existem vários pontos contraditórios ou
mal resolvidos sobre o sistema de TV Digital. Um deles é
a escolha do sistema. Para a TV Digital foi escolhido o padrão
japonês (ISDB). Para isso o comitê responsável
pela implementação da TV Digital, ignorou os padrões
que estavam sendo constituídos por diversas universidades
brasileiras, entre elas a PUC-RS que buscava obter soluções
que iam dos ajustes dos receptores até o sistema de transmissão.
Quem ganhou realmente com a escolha desse sistema foram as empresas
de comunicação e as empresas japonesas. Ganham também
as empresas que venderão, e “repassarão”
a tecnologia para o Brasil.
Mas do outro lado perde a população. O Fórum
Nacional pela Democratização das Comunicações
defendia uma maior participação da sociedade, a
entrada de novos operadores e os estímulos ás produções
regionais. Há muitos anos a televisão brasileira
mostra um Brasil que não existe. Parece que nosso país
fala a mesma língua, sem sotaques, com as mesmas culturas,
gostos e hábitos. A hegemonização cultural,
patrocinada pelas grandes redes de televisão, sufoca as
culturas regionais. Hoje a produção local é
mínima e as estações estaduais são
meras retransmissoras da programação das redes nacionais.
Esse debate foi perdido pela sociedade na discussão da
TV Digital. A escolha recaiu em beneficiar as grandes empresas
de comunicação em detrimentos das emissoras regionais.
A centralização das concessões impede que
outras iniciativas de comunicação possam existir,
pelo menos a médio prazo.Muda hoje apenas a estética
(cenários merecerão mais cuidados por que imperfeições
aparecerão na tela). Muda também a TV que irá
virar um shopping center (você poderá comprar produtos
diretamente pela tela). Mas o que muda para que as informações
fluam com mais liberdade? Para que existam mais versões
sobre o mesmo fato? Por enquanto isso não faz parte da
pauta das emissoras e infelizmente nem do próprio governo.
A TV Digital estréia com o objetivo de fazer melhor o que
ela já faz. As novelas serão mais bonitas, as partidas
de futebol serão mais emocionantes (você poderá
escolher com qual câmera verá um determinado lance),
os filmes parecerão cinema e só. A vontade da população
ainda será pouco observada e a tal interatividade não
terá tantas escolhas assim.
Mas o sistema está aí e cabe a sociedade civil buscar
maneiras de se inserir nele. Precisamos avançar na democratização
da comunicação, no controle públicos das
concessões. Para isso é necessário que todos
os movimentos retomem a luta pela democratização
da comunicação no país. Precisamos lutar
para a realização da Conferência Nacional
da Comunicação e exigir a substituição
de Hélio Costa do ministério, a mudança da
política para o setor e combater a violência que
as rádios comunitárias sofrem, ampliando também
o debate sobre a TV digital.
Edições
anteriores
Prefeitura
restaura Mercado Público Central - Edição
112
Revitalização do Centro
- Edição 113
Os
direitos da criança e do adolescente - Edição
114
As
muitas feiras do livro - Edição 115
Ações para combater a Dengue - Edição
116
A
Saga da Nação Negra - Edição 117
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