Sobre o patronato da Feira do Livro

A escolha do Patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, desde a década de 60, do século passado, dava-se através do colegiado diretivo da Câmara Rio-Grandense do Livro. Uma dezena de membros, editores e livreiros, decidia, anualmente, quem seria o autor homenageado. No princípio, se homenageava autor morto. Depois, passou-se a homenagear autores vivos. Em si, o método não tinha problema. À direção da CRL cabia escolher o intelectual que lhe parecesse o mais adequado para receber a láurea. Durante a gestão de Paulo Flávio Ledur, em 2001, este processo sofreu profunda transformação e se democratizou. No princípio, planejou-se deixar a decisão final com a população, que votaria numa lista tríplice.

A sugestão encontrou grande resistência junto a alguns setores, e, inclusive, entre escritores. Temia-se que o lobby de alguns fosse capaz de desequilibrar a disputa. Para evitar discussões estéreis, a CRL recuou. Recuou, mas não desistiu da proposta de tornar a escolha do Patrono mais transparente, mais democrática e mais representativa.

Assim, a partir daquele ano, membros da Câmara Rio-Grandense do Livro passaram a votar em escritores, promotores do livro, editores, jornalistas, poetas, dramaturgos, e outros intelectuais em atividade no Rio Grande do Sul. Os dez mais votados formam a lista de patronáveis. Depois, reitores, professores, diretores de instituições culturais, governantes tornam a votar em 3 dos 10 patronáveis. O melhor pontuado torna-se o patrono.

O método, sob o qual foram eleitos, por exemplo, Ruy Carlos Osterman, Armindo Trevisan, Valter Galvani, Donaldo Schiller, Rovílio Costa, Alcy Cheuiche e Antônio Hohlfeldt, mostrou-se muito eficiente, digno e exemplar.

Em 2008, a lista de patronáveis da CRL foi reduzida a cinco concorrentes, com a intenção de dar maior visibilidade a cada um dos candidatos.

Depois de diversos patronatos democráticos, pode-se dizer que, em primeiro lugar, erraram os que apostaram no perigo da eleição. Essa espécie de parlamentarismo cultural, em que a escolha do patrono é o resultado de um colegiado representativo da cultura no Estado, mostrou-se muito eficiente. Ninguém duvida que os já escolhidos não fossem merecedores da honraria. Em segundo lugar, a divulgação da nominata de candidatos a patrono prestou um grande serviço à literatura gaúcha, nestes sete anos. Nos mais escondidos rincões do Estado, professores, leitores e população em geral, souberam que são muitos os escritores desta terra, potenciais patronos. E, no mínimo, terão ficado curiosos por saber quais os que não entraram, ainda, na lista apresentada pelos membros da CRL. Em terceiro lugar, a invenção do novo processo de escolha do patrono antecipou a chegada da Feira, trazendo à pauta da sociedade organizada, do jornalismo cultural, do poder público, a questão do livro, a sua necessidade, a sua importância. Com o aprofundamento democrático dos processos decisórios, ganhamos todos. Satisfeitos estão os associados da CRL, que agora votam nos patronáveis; satisfeitos estão os dirigentes da CRL, que podem dividir o ônus da responsabilidade social de decisão, legitimando ainda mais essa decisão; satisfeitos estão os candidatos patronáveis, que têm a oportunidade de participar de uma disputa solidária, fraterna e enriquecedora; satisfeitos estão os membros eleitores da comunidade cultural que definem quem será o Patrono.

A Câmara Rio-Grandense do Livro provou que não há por que se temer a legitimação social do voto. Ao abrir as portas da decisão, ao dividir o poder decisório, a CRL deu uma grande lição de cidadania e dignidade. E, depois de freqüentar a lista de candidatos desde 2001, chegou a minha vez de ocupar o posto de Patrono. Farei o que estiver ao meu alcance para tornar a Feira deste ano um grande evento cultural.


Charles Kiefer
Escritor e Patrono da
54ª Feira do Livro



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