Exemplos de civilidade

Sou morador do Centro Histórico de Porto Alegre, lugar que escolhi para viver e de onde não pretendo sair, a não ser que as circunstâncias mudem e o destino me leve daqui. Ultimamente tenho tido ímpetos de insatisfação e fúria! Como sou civilizado, me contenho e não parto para a ignorância. Falta de educação me tira do sério, ainda mais quando o mau exemplo vem daqueles que deveriam dar o exemplo. Sou frequentador das Praças Júlio Mesquita e Brigadeiro Sampaio. Nesta última, existe uma confraternização quase perfeita entre as pessoas e seus animais de estimação. Quase perfeita porque alguns não entenderam a importância de cada um de nós, enquanto cidadãos, fazermos a nossa parte. Um senhor, aparentando uns 50 anos, grisalho, de terno e gravata, sapatos lustrados, costuma passear com seu casal de poodles, um preto e outro branco.

O branco segue preso na guia, o preto fica solto. São inofensivos os bichanos, mas esse senhor não sente o menor constrangimento em deixar para trás o cocô dos seus animais de estimação. A indignação me pega. A fúria toma conta de mim. Falta-me coragem de abordá-lo. Geralmente pessoas com essa postura costumam ser agressivas. Claro que ele não é o único a fazer isso. Há mais ou menos um mês, a Praça Brigadeiro Sampaio amanheceu com cartazes presos no tronco de suas árvores, todos traziam o mesmo recado: pediam mais civilidade aos frequentadores da praça, um pedido cordial, em tom didático e apaziguador. Fiquei feliz ao ver que alguém ali pensava como eu. É elogiável a disposição da pessoa que preparou dezenas de cartazes e depois, um a um, pregou-os no tronco destas árvores pedindo aos cidadãos que juntassem o cocô de seus cachorros. As Praças Júlio Mesquita e Brigadeiro Sampaio são atendidas por funcionários que zelam constantemente pela sua limpeza. Precisamos da colaboração dos moradores e visitantes que usufruem destes espaços para que possamos conviver em harmonia. Afinal, podemos usufruir de nossas praças juntando o cocô de nossos cachorros.


No dia 30 de setembro, o Movimento VIVA Gasômetro, criado por Jacqueline Sanchotene e por mim, foi homenageado com o 3° Prêmio COMPAHC 2009 – Mérito ao Patrimônio, pelo empenho na Preservação e Valorização do Patrimônio Cultural de Porto Alegre. A indicação do prêmio foi comunicada pelo Prefeito Municipal de Porto Alegre, José Fogaça e pela presidente do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Cultural (COMPAHC), Rita Chang. A solenidade de entrega foi realizada no Salão Nobre do Paço Municipal, com coquetel no Porão dos Arcos, na Praça Montevideo. O Viva Gasômetro desenvolve ações culturais e sociais na Praça Júlio Mesquita, objetivando construir uma sociedade mais justa para os moradores do Centro Histórico de Porto Alegre. Jacqueline Sanchotene, moradora da Rua General Salustiano, mereceu essa conquista mais do que qualquer outra pessoa. Seu empenho é constante, organizando e conduzindo as atividades realizadas na Praça Júlio Mesquita. Agora, gostaríamos de pedir um pouco mais da atenção do poder público para que revejam os projetos paisagísticos das Praças Júlio Mesquita e Brigadeiro Sampaio, que necessitam de melhorias em sua estrutura.

Os monumentos devem ser recuperados e devolvidos à comunidade com suas placas de identificação. Para que novas propostas de atividades possam alcançar êxito, contando inclusive com um maior envolvimento da comunidade do entorno, precisamos que investimentos sejam feitos nestes espaços. A Praça Júlio Mesquita merece um anfiteatro, por menor que seja, para que ali possamos dar continuidade às exibições dos filmes, como já ocorre todo o terceiro sábado de cada mês, e para possibilitarmos apresentações teatrais, espetáculos de dança e musicais. Tudo isso, para atender a demanda dos visitantes e moradores do Centro Histórico de Porto Alegre que buscam atividades culturais alternativas, de qualidade e gratuítas!

Christian Lavich Goldschmidt
jornalista, escritor e ator


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